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Como ser independente?

ser independente

Esse foi O ANO de pensar sobre as dores e delícias de ser independente. Não gente. Não é a crise dos 30, que já passou, aleluia amém!

Faz algum tempo que tenho um certo grau de independência. Conquistada na porrada, mas tenho. Eu revi os pilares do que, para mim, era ser independente para poder tomar algumas decisões pessoais e resolvi compartilhar.

No auge dos meus 15 anos eu pensava que ser independente seria um conto de fadas urbano se realizando. Uma mistura da Gilmore Girls com Sex and The City!

Mas, minha vida real não é nada parecida com esses seriados, viu? Tá mais pra enredo de filme de tragédia cômica ou novela mexicana.

Comecei a descobrir como ser independente bem cedo, mas isso não facilitou as coisas, só moldou meu jeito de ser.

Antes de começar a trabalhar, aos 11 anos de idade, eu já era um tanto “independente”, apesar de ser uma criança tinha uma autonomia inerente a minha criação.

Mãe, pai e meus irmãos mais velhos trabalhavam fora; Nani, minha irmã do meio, e eu, ficávamos muito tempo sozinhas. Ela é só 1 ano e 4 meses mais velha que eu, éramos duas crianças sozinhas pra comer, ir e voltar da escola, cuidar da casa e começamos a cuidar de crianças pra ganhar um dinheirinho.

Esse resumo já ajuda a entender como fazer as coisas sozinha ou por mim mesma, nunca foi um problema, certo?

Mas, senhoras e senhores, sinto dizer: ser independente é bem mais que isso!

Lembro bem como era trabalhar e pegar meu pagamento feliz da vida, chegar em casa e dar pra Mamis. Era chato, um saco! Meu dinheiro não ficava comigo e eu não sabia o tanto que ele rendia pra ajudar a pagar auguel, água, luz, comida. Não tinha luxos, mas não tinha preocupações, não tinha decisões, planejamentos ou contas.

Eu não era independente mesmo, só me achava a badass da 5° série.

Quando decidi prestar uma bolsa de estudos para o colégio técnico, me achava a mais fodona independente das meninas de 15 anos.

Comparando com as minhas colegas de classe, eu era independente e responsável (cof-cof na responsabilidade eu dava umas deslizadas). Única aluna de família realmente pobre no colégio, que trabalhava para pagar os estudos e negociava com o diretor quando precisava atrasar.

Mas, eu tive a ajuda da minha irmã mais velha para pagar o colégio e tantas outras ajudas, doações de livros e etc.

Estava bem longe de ser independente, mas já tinha autonomia, responsabilidade e idade. Mesmo assim não me ensinaram que ser independente era algo bom, pelo contrário!

Na minha criação mulheres independentes eram taxadas de “fortes demais para os homens” que “assustam” e, consequentemente não se casam, ficam sozinhas e não são 100% realizadas.

Independência é um sinônimo de liberdade, mas para mulheres, isso nunca foi algo 100% bom. Mesmo tendo vindo de uma família matriarcal, com mais mulheres que homens, vi minhas primas, tias, irmã e mãe, serem taxadas por seus relacionamentos (ou pela falta deles) e comportamentos.

Minha família mudou e, por sorte, a sociedade está mudando.

Ser independente é ter domínio e responsabilidade irrestrita sobre sua vida, suas escolhas e lidar SOZINHA com as consequências no caminho.

LIDAR SOZINHA com as consequências quer dizer que se você corre pro empréstimo de mamãe e papai quando não consegue pagar as contas que fez, você não é independente. É no máximo uma pessoa mimada e irresponsável, sorry!

Você sabe lavar sua roupa? Você sabe cozinhar uma refeição completa? Você sabe limpar a casa? Sabe fazer sua própria unha e maquiagem? Ou pelo menos consegue bancar tudo isso sem precisar de nada além do seu próprio esforço e vontade?

Ok. Mas, nada disso te faz independente se na hora do VAMO VÊ você sempre corre para alguém resolver seus problemas ou te ajudar, mana!

É claro que posso ser independente, auto-suficente, mas nunca me achar onipotente.

Não estou dizendo que ser independente é não precisar de ajuda pra nada nunca mais nessa vida. Mas, é precisar de ajuda por motivos certos e não por erros irresponsáveis, entende?

Tem uma grande diferença quando você precisa de ajuda por um acidente, doença, imprevisto e etc. Receeber e dar ajuda é essencial na vida, falo disso mais adiante. Mas, uma pessoa independente e madura deve arcar com suas escolhas, especialmente, quando erra.

Ter a humildade de reconhecer que minha independência não me torna uma Deusa é uma das coisas que me mantém equilibrada e faz com que eu não me isole nessa vida.  Eu sou no máximo uma Amazona Guerreira com muito sangue nos olhos 🙂 mas…

Recentemente fiquei 3 meses sem poder usar minha conta bancária e cartões por conta de um processo de divisão de bens. Nesse período eu paguei contas que caiam automaticamente, mas para coisas básicas do dia a dia (comida, gasolina e outros gastos) eu recorri a santa ajuda da minha mãe.

Entre ir comer todos os dias na casa dela e pequenas quantidades de dinheiro, foram 3 meses que precisei de ajuda. Sem contar todo amparo emocional, né?

Minha mãe não deixou eu jogar carro em cima de ninguém, nem tacar fogo em nada 😀

Eu deixei de ser independente por isso? Não.

Isso aconteceu sem que eu pudesse retirar meu dinheiro da conta antes, foi um imprevisto. Não uma ajuda sem data para acabar. Não fiz nada usando o nome/dinheiro de outras pessoas como se fossem meus e mantive minha independência mesmo com essa ajuda. Assim que tudo se resolveu a primeira coisa que fiz foi devolver toda a ajuda.

Ser independente é também saber reconhecer quando preciso de ajuda, qual ajuda é boa de verdade e ser responsável/honesta para retribuir/devolver toda ajuda assim que possível.

A primeira coisa para ser independente é a consciência de que sou a única responsável por como me comporto e pelas escolhas que faço diante das situações.

Errar é humano, pedir ajuda quando erro é inteligente, mas precisar de muletas o tempo todo para reparar meus erros é dependência e fraqueza.

Existe Deus, existe destino, existe um monte de coisa, mas meu único inimigo e amigo é aquele reflexo que vejo no espelho.

Ter domínio da minha vida é decidir cada passo de forma pensada, alinhada com meus planos e metas, sabendo que meu caminho é só meu. Mesmo que tenha alguma ajuda no trajeto, o caminho é meu!

Com a independência precisamos cada vez menos da aprovação dos outros, passamos a filtrar quem pode opinar e qual opinião é importante de ser ouvida. Isso muda nossas relações pessoais e familiares, começamos a nos fortalecer internamente e com o tempo ficamos mais fortes mentalmente.

Independência é força, força bem medida e que deve ser bem usada.

Quando morei sozinha pela primeira vez, por 1 ano, aprendi uma lição que carrego até hoje. Não é pagar as contas, trabalhar, ter dinheiro, um carro e etc., que faz de mim independente.

Foi um momento de luto e dor. Mas, também de descoberta de uma nova vida longe da igreja, novas amizades, lidar com contas, a vida sem meu pai e minha mãe, esse mundão doido e uma casa.

Eu não era independente, mesmo sem precisar de dinheiro emprestado, morando sozinha e pagando as contas, eu fazia péssimas escolhas pra mim só para preencher o luto. Eu não me sentia bem em casa, não estava bem no trabalho, vivia em baladas e não tinha equilíbrio.

Eu tinha 21 anos e descobri que eu não funcionava bem sozinha naquela situação, imatura e inexperiente eu jamais seria independente.

Uma pessoa independente precisa funcionar MUITO BEM sozinha! Ter equílibrio e superar momentos difícieis sem cometer erros e piorar sua situação.

Independência é também maturidade e resiliência.

Independência emocional e psicológica eu tento construir no dia a dia, sabendo o que é meu de verdade, o que é carência e o que é do outro.

A vida é complexa demais para ter a pretensão de achar que sou 100% segura da minha independência emocional e psicológica. Por isso eu cuido para não perder o que conquistei ao longo dos anos com terapia, escrita e espiritualidade.

Sigo aprendendo!

Dia desses aconteceram duas coisas na minha vida que vale contar aqui para falar de outro nível de independência.

Nos últimos quatro meses eu guardei uma reserva de dinheiro, que era uma reserva de emergência. Estava feliz com ela até que meu celular quebrou e eu quis comprar um novo. Como eu não gosto de parcelar compras, comprei outro iPhone à vista, com o desconto do usado, até que… 1 mês depois…

Roubaram o step do carro e quebraram o suporte dele, uma emergência de verdade…

Não posso dirigir sem step e também não queria comprar em lojas ilegais, sem nota e pagar mais barato incentivando o crime. Com minha reserva de emergência defasada eu tinha algumas opções para seguir:

  • Parcelar a compra da roda e pneu (que eu não gosto);
  • Pedir dinheiro emprestado (que eu evito até a morte);
  • Ficar andando sem step até que eu completasse o dinheiro ou o pior acontecesse (que seria uma burrada enorme);
  • Comprar o step novo, consertar a gaiola e pagar a vista com o dinheiro da minha conta corrente e não cometer excessos ou burradas até formar a reserva de emergência de novo.

O que eu fiz?

A última opção que não era, nem de longe, a mais fácil ou mais gostosa.

Alcançar a independência financeira é saber usar o dinheiro que tenho e a liberdade que ele me dá com consciência de que cada escolha pode implicar em uma renúncia mais adiante.

Ser independente não é só liberdade, é responsabilide e culhões, viu?

Outro pilar importante, para mim, é reconhecer a “Lei da Interdependência”, Innen no Hou, um dos princípios básicos do Budismo:

“Quando você é jovem, saudável e forte, às vezes tem a sensação de ser totalmente independente, de não precisar de ninguém. Mas isso é uma ilusão. Mesmo na flor da idade, simplesmente por ser humano, você precisa de amigos, não? Isso é especialmente verdade quando fica velho e precisa contar mais e mais com a ajuda dos outros. Essa é a natureza de nossas vidas como seres humanos.

Em pelo menos um sentido, podemos dizer que as outras pessoas são realmente a principal fonte de todas as nossas experiências de alegria, felicidade e prosperidade, e não apenas em relação a nossas interações diárias. É possível ver que as experiências desejáveis que cultivamos dependem da cooperação e interação com os outros; é um fato óbvio.

Mesmo de uma perspectiva totalmente egoísta – querendo apenas nossa própria felicidade, conforto e satisfação na vida, sem consideração pelo bem dos outros – eu ainda argumentaria que a realização de nossas aspirações dependem dos outros. Mesmo a execução de ações nocivas dependem da existência dos outros. Por exemplo, para trapacear, você precisa de alguém como objeto do seu ato.

Todos os eventos e incidentes na vida estão tão intimamente conectados com a vida dos outros que uma pessoa sozinha por si só não pode sequer começar a agir.

 ~ XIV Dalai Lama Tenzin Gyatso, em “The Compassionate Life” (cap. 1, pgs. 5 e 6)”

Uma das atitudes que Buda diz ser a causa do sofrimento é ignorar a realidade da interdependência.

Compreender que tudo o que faço impacta o mundo e as pessoas ao meu redor me traz a responsabilidade necessária para ser independente e não egoísta.

Aceitar que eu preciso me relacionar de forma saudável e íntegra com os que me cercam faz com que minhas escolhas, mesmo independentes, sejam mais sábias.

Seja na carreira, em família ou no mundo ninguém constrói sua independência sozinho, nem pode desfrutar dela completamente se estiver isolado.

Por isso independência é também desempenhar com responsabilidade os meus papeis no mundo. Compreender que minhas ações causam reações que são ciclícas… Vão e voltam.

O que eu causo com a minha independência volta pra mim com a força aumentada do que minha ação gerou no mundo nos outros. Ser independente não é ser individualista, egocêntrico ou egoísta. Para ser independente não posso me desligar do fato de que ninguém pode viver só.

Com tudo isso eu estou construíndo minha independência e tenho curtido a experiência até aqui, com suas dores e delícias. E você?

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3 Comments

  • Reply
    Thaís Abrão
    agosto 17, 2017 at 2:27 pm

    Adorei este post! Amei muito! E é tudo muito verdade! Ahh, se ser independente fosse só dar conta das contas. Mas é não se perder nem mergulhar os outros na nossa própria bagunça. Achei muito legal esse fragmento do Dalai Lama. Às vezes a gente não para pra pensar o quanto somos responsáveis, também, pela vida dos outros. Digo isso no sentido do texto mesmo, de sermos menos egoístas justamente porque não vivemos sozinhos, nem queremos, acredito eu. Aí haja auto controle e auto conhecimento. Em terapia, tô sempre tentando identificar quando estou sendo realmente sensata ou quando são só minhas imperfeições falando. É um trabalho para a vida inteira!

    • Reply
      Lis
      agosto 18, 2017 at 12:46 pm

      Exatamente Thais! Eu me analiso o tempo todo, tento ver com muita realidade quem eu sou e o quanto eu sou responsável pelo mundo ao meu redor, pelas situações que me aconteceme e etc.
      A genta tá nesse mundo é pra evoluir, então abraço essa busca e vamos na luta rs

  • Reply
    Nana
    agosto 19, 2017 at 9:09 am

    Muito bom!
    Bj e fk c Deus
    Nana

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